Como aproveitar melhor sua cerveja?

por Mateus Vidigal

Desde já, devo dizer que este aqui não é um texto sobre como degustar ou analisar formalmente uma cerveja. Diria que é apenas um compilado (bastante introdutório) de dicas e conceitos básicos para desfrutar melhor das cervejas que você bebe.


Logo de cara, aviso que aproveitar melhor uma cerveja implica em conhecer mais sobre cerveja.


Conhecer mais sobre cerveja e suas respectivas categorias, claro, mas também aprender sobre serviço.


De antemão, quero deixar duas leituras complementares & gratuitas por aqui: o guia do Brewer's Association (BA) e o Beer Judge Certification Program (BJCP). Ambos vão dar uma dimensão muito mais precisa do que esperar de cada um das dezenas de estilos de cerveja existentes.


Caso não leia em inglês, existem versões em português desses guias. Basta dar aquele famoso Google que é fácil de encontrar.


Agora, vamos lá...


É evidente que existem muitos aspectos técnicos que precisam ser levados em consideração na hora de analisar-para-aproveitar-melhor uma cerveja. Espero com que essa espécie de roteiro, sua relação com a cerveja, daqui em diante, se dê de forma mais prazerosa.

Por que conhecer melhor os estilos tornaria minha experiência mais prazerosa?


A resposta dessa pergunta é relativamente simples: o conhecimento sobre estilos é libertador a medida que cria expectativas mais precisas a respeito da experiência em si, permitindo que você usufrua melhor das suas cervejas uma vez que você sabe mais sobre elas.


Em outras palavras: saber mais sobre um estilo te faz parar de buscar nele características que não o pertencem. Ou seja: você vai procurar características de IPA... numa IPA, e não numa Stout, entende?


(parece uma tarefa um tanto quanto trivial, mas os check-in no Untappd estão aí para mostrar que não é rs)

Sem mais delongas, vamos começar...


Peguei uma lata/garrafa e abri... E aí, fez barulho?


Tem que fazer.


No caso de latas e garrafas, diria que a apreciação de uma cerveja começa com o som da abertura das mesmas. Uma cerveja bem envasada e com carbonatação adequada (gás carbônico dissolvido no líquido) vai fazer barulho e o líquido vai permanecer estável dentro do recipiente.


Resumindo, tem que fazer o tsssss e o líquido tem que ficar no lugar que ele pertence até que você decida despejar ele no copo. Esse barulho pode ser mais discreto ou mais potente, mas tem que acontecer.


Se não existir barulho ou se o barulho for um tanto quanto oco, no caso da grande maioria das cervejas, (provavelmente) algo está errado.

Breve observação n°1: no caso de garrafas de cervejas envelhecidas por muito tempo, é comum que não haja um som expressivo (ou qualquer som) no momento da abertura por conta da troca de gases com o ambiente externo/dispersão de CO² - depois podemos falar com um pouco mais de calma a respeito de envelhecimento de cervejas. Então, como tudo que falei até aqui, não existem regras incontestáveis.


O serviço! Formato e limpeza do copo


Sim, gente... Copo adequado não é frescura. O formato do copo, a presença ou ausência de haste, a presença ou ausência de bojo, o quão estreita ou larga é a boca... tudo isso é altamente influenciável para a experiência.


Como tudo até aqui, estamos falando de assuntos muito, muito extensos.


Copo é coisa séria e rende um texto a parte. Neste texto, vou me ater a recomendar que considere ampliar seu portfólio e estoque de copos. Ao menos, considere comprar alguns formatos coringa, que suprem bem a uma gama consideravelmente ampla de estilos.


Por exemplo: copos como calderetas, pints, tulipas, ou até mesmo taças de vinho branco podem ser muito úteis & versáteis.


Breve merchan: no site da Cruls, temos diversos copos disponíveis (tipo esse Weizen lindão aqui embaixo) - e rola uns descontos bastante razoáveis, dê uma olhada.



Voltando ao assunto... em linhas gerais, é possível dizer o seguinte: cervejas menos complexas e/ou mais carbonatadas tendem a desempenhar melhor em copos mais altos e estreitos. Cervejas mais complexas e com carbonatação moderada/baixa tendem a desempenhar melhor em copos com bojo mais largo, alternando entre opções com boca mais ou menos estreita, com ou sem haste, enfim...


Repito: copo é um assunto muito extenso. Não dá para resumir em três parágrafos. Voltarei ao Blog em outro momento para tratar disso com mais detalhes.


Sobre a limpeza dos copos: para uma boa limpeza considere (fortemente!) ter buchas específicas para copos, use detergentes ou sabões neutros & enxague bastante.


Não tem segredo além disso.


Copos com resquícios de gordura, detergente, até mesmo empoeirados (aquele copo esquecido no armário), detergentes/sabões com muita informação sensorial... tudo isso atrapalha o serviço e a experiência de um modo geral, podendo influenciar na formação/retenção de espuma ou até acrescentando aromas e sabores que não deveriam estar ali.


Dica: não espere lavar uma frigideira engordurada, usar a mesma bucha para lavar sua taça e sair impune dessa situação, ok?


Ah, também recomendo higienizar sempre latas e garrafas, ok? Você nunca vai pecar por excesso de higiene. Já por falta...

Aparência

Cada estilo de cerveja tem uma gama de cor permitida para aquela categoria. Por exemplo: cervejas do tipo Pilsen podem ir de tons de amarelo mais claros até dourado profundo, geralmente são brilhantes/translúcidas, tem boa formação e retenção de espuma.


Ou seja: ver uma Pilsen opaca e amarronzada, com baixa formação de espuma... bom, isso não pode ser um bom sinal.


A depender também da proposta da cerveja, é possível que existam oscilações de alguns parâmetros. Como, por exemplo, formação e retenção de espuma, brilho e opacidade, entre outros.


Por exemplo: em cervejas ácidas e/ou muito alcoólicas, existe uma permissividade maior para baixa formação e retenção de espuma. Para determinados estilos, é permitido turbidez, opacidade... em outros, não.


A depender dos adjuntos usados na receita desta ou daquela cerveja, alguns desses aspectos visuais podem sofrer alterações. Sendo assim, minha dica é: procure saber o estilo base e a proposta da cerveja que está tomando. A partir daí, faça sua análise visual.


Consulte os guias de estilo!


Temperatura

Novamente, temperatura adequada é papo sério e não dá para resumir em poucas linhas.


Existem algumas variáveis que devem ser levadas em consideração ao pensar em temperatura de serviço de uma cerveja (não apenas estilo e proposta, como também clima do local, por exemplo), mas, de forma resumida, as temperaturas de serviço de cerveja podem variar de 2 °C a 14 °C (temperaturas mais baixas e mais altas do que essas são permitidas, ok?).


Sem querer impor mantras, mas um bom norte para pensar temperaturas adequadas de serviço é este aqui: quanto mais complexa e mais alcoólica for a cerveja, menos fria ela deve ser tomada. Quanto menos complexa e menos alcoólica, mais fria ela deve ser servida.


Exemplo: uma Bohemian Pilsener pode ser bebida a temperaturas mais baixas, entre 2 °C e 4 °C. Já uma Belgian Dark Strong Ale pode ser bebida em temperaturas mais altas, lá para os 8 °C e 10 °C - com potencial de evolução em copo para temperaturas ainda mais altas.


Essas variações tem a ver com a estrutura e com o perfil sensorial daquela cerveja em específico. Corpo, textura, carbonatação, complexidade... Notas mais delicadas, por exemplo, tendem a se desprender da cerveja com mais facilidade em temperaturas mais altas. Novamente, digo que vale a pena dar uma pesquisada em cada um dos estilos descritos nos guias e também checar a faixa de temperatura mais adequada ao serviço.

Aromas e sabores

Não tem segredo: aroma e sabor só se aprende cheirando, bebendo e aumentando o repertório sensorial.


Você não vai ganhar um repertório sensorial da noite pro dia.


Os aromas e os sabores podem vir de diversas fontes e assumem diversas características, mas, de forma sintética, aromas e sabores vem dos lúpulos, maltes, adjuntos (caso existam) e dos famosos subprodutos de fermentação (mais ou menos perceptíveis, a depender do tipo e do estilo da cerveja).


De forma resumida, os lúpulos podem contribuir com características herbais, terrosas, florais, cítricas, resinosas e frutadas. Como já conversamos em outro texto, uma mesma variedade de lúpulo pode trazer diversas características, permitindo que um mesmo lúpulo entregue mais de um desses sensoriais. Tudo vai depender da variedade, onde foi plantada, o que essa safra em particular trouxe sensorialmente, etc.


Já o malte pode trazer uma gama sensorial que vai desde grão, passa por miolo de pão, biscoito, mel, caramelo, chocolate, café... ou até mesmo defumado! São muitas possibilidades. Muitas mesmo. Novamente, tudo vai depender do estilo e da proposta da cerveja que está consumindo, claro, mas também da própria matéria-prima.


Quando falo em adjuntos, quero dizer adições de coisas que não sejam o lúpulo e o malte, ok? Essa não é exatamente a definição técnica de adjunto, mas, neste caso aqui, vamos deixar assim por hora.


(aliás, isso me deu uma ideia de texto)


De forma resumida: adições de frutas, de outras bebidas, de outros grãos, de condimentos e especiarias, enfim... Esses elementos podem contribuir com aromas e sabores. Simples assim.


Para encerrar essa sessão de aromas e sabores, é preciso falar dos famosos subprodutos da fermentação. Aqui, basicamente estamos falando de compostos químicos que vão contribuir com características-de-coisas-que-conhecemos, mas que não necessariamente estão presentes/foram inseridas na receita daquela cerveja específica.


Quer ver um clássico caso de subproduto de fermentação?


Eu pergunto: gente, quais são os aromas clássicos de uma Weissbier?


Vocês respondem: banana e cravo, Mateus!


E eu pergunto: e vai banana e cravo na receita de uma Weissbier, minha gente?


Vocês respondem: claro que não, Mateus! São apenas subprodutos de fermentação derivados do metabolismo das leveduras durante esse processo. Especificamente & respectivamente, quando falamos em banana e cravo, estamos falando do acetato de isoamila e do 4-vinil-guaicol, claro.


Isso mesmo, gente, vocês são demais!


Esses possíveis subprodutos de fermentação são muito diversos e podem ser positivos ou negativos: por exemplos, eles podem entregar características dentro dos amplos espectros de frutas (ésteres) e condimentos (fenóis) e costumam ser mais comuns em cervejas do tipo Ale do que naquelas do tipo Lager... mas, novamente, vai depender de cada estilo e de seus respectivos parâmetros.


É importante ressaltar que existem estilos que vão entregar mais complexidade e outros que vão ser mais simples e diretos. Isso não é um juízo de valor. Uma cerveja simples não é menos interessante que uma cerveja complexa.

Sugiro que, ao cheirar e beber uma cerveja, tente expressar o que está sentindo. Novamente, conhecer os estilos ajuda a traçar um horizonte de expectativas do que irá encontrar naquele produto. Leiam os guias que sugeri lá em cima (sério).


Importante: Sem querer cair em termos muitos técnicos, não dá para deixar de mencionar os aromas e sabores sentidos de forma retronasal.


Quando estamos com a cerveja em boca (não apenas cerveja, mas líquidos e alimentos em geral), é possível sentir alguns aromas e sabores por conta das terminações nervosas presentes no epitélio olfatório, cujo acesso se dá por dentro da boca. Antes que eu entre em termos ainda mais técnicos, minha dica é, deixe a cerveja passear pela boca, engula e respire com alguma atenção aos aromas e sabores que vão surgir após cada gole.


Num vá engasgar, hein? Faça uma coisa de casa vez!


Agora, quando falamos em sabor, estamos falando de uma conjuntura de coisas: gosto (gostos básicos: doce, amargo, salgado, ácido e umami), aroma e sensação.


Sensação, mais uma vez, de forma resumida, está atrelada a uma leitura tátil da cerveja na boca: é leve ou é densa? Ou então, está no meio do caminho? Tem textura frisante? Sensação média de carbonatação? Ou então tem pouco gás, está meio flat, "xoca"?


Reforço que cabe se atentar a cada uma dessas características e analisar se fazem mais ou menos sentido dentro da proposta e do estilo da cerveja em questão.


E o tal do retrogosto/aftertaste?

Com certeza você já ouviu falar nesses termos. Existem escolas que vão chamar de retrogosto, outras que vão chamar de aftertaste... e é menos complicado do que parece.


De forma muito sintética, retrogosto é tudo aquilo que acontece depois do gole.


É praticamente uma segunda análise do que aconteceu sensorialmente em termos de sabor depois que você deu o gole na bebida.


Novamente, dependendo do estilo de cerveja, aquilo que vai aparecer no retrogosto é mais ou menos complexo, mais próximo ou mais distante daquilo que aconteceu ainda com a cerveja em boca.


É possível que algumas notas fiquem mais expressivas, outras mais contidas, que o balanço de dulçor e amargor seja diferente, enfim... vale a pena prestar atenção no que acontece após o gole!


Pelo amor, já falei demais nesse texto!


Para fechar, acho importantíssimo lembrar o seguinte: no fim das contas, a cerveja é sua e você pode beber da forma que quiser, no copo que quiser, na temperatura que quiser, dando atenção (ou não) praquilo que quiser.


No entanto, na minha visão, se quiser aproveitar ao máximo sua cerveja e cada um dos estilos existentes, acredito que o caminho que sugeri possa ser de alguma utilidade.


Ufa, acho que é isso!


Cada um desses tópicos tem um milhão de desdobramentos, então provavelmente voltarei aqui para dar mais atenção a eles.


Tem alguma sugestão de texto para o nosso Blog? Qual desses tópicos deveria atacar primeiro com mais profundidade? Deixe comentários aqui ou no canal que preferir!


Lembrando que o site da Cruls opera com descontos de até 30% diariamente, aproveite!


Por hoje é só, tchau!

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